Por uma Ética Eco-Social

Escrito por Maria Alice Canzi Ames.

Vivemos em um mundo em que a ética tem sido esquecida ou não valorizada, cometemos injustiças sociais e ecológicas, onde a natureza vem dando sinais freqüentes de nossa ação irresponsável através de enchentes e longos períodos de seca. A degradação intensiva de espaços naturais acarreta a destruição de certas culturas e até mesmo de povos inteiros, mas teimamos em continuar a fazer as mesmas coisas que faziam nossos pais: desmatando, poluindo e agredindo a natureza, a nós mesmos e a nossos semelhantes, em nome do ‘progresso’. A superexploração das terras cultivadas, a industrialização, os gases poluentes, as queimadas, desmatamentos de florestas e construções de barragens destroem os ecossistemas, as plantas, os animais e os homens, provocando a desertificação e o efeito estufa.
Para compreendermos essa conduta, temos que lembrar da maneira como fomos nos organizando enquanto sociedade: através do modo de produção capitalista, baseado na dominação e exploração do ser humano e da natureza. Produto do capitalismo é também a chamada “globalização” onde o setor econômico comandado por grandes corporações possui mais força que um governo, ocasionando o choque de interesses entre a sociedade civil e os empresários, pois esse modelo é altamente excludente e predador da natureza. Diante desse quadro, precisamos buscar princípios norteadores de um futuro melhor para todos, em especial as novas gerações.
Importante definir o que entendemos por Ética. Segundo Cotrim (2000:264), “Ética é o estudo sistematizado das diversas morais, no sentido de explicitar os seus pressupostos, ou seja, as concepções sobre o ser humano e a existência humana que sustentam uma determinada moral.” E prossegue: “Busca aplicar o conhecimento sobre o ser para construir aquilo que deve ser.” Etimologicamente a palavra Ética vem de Ethos, que significa costume, caráter. Podemos traduzir como um comportamento que vamos adquirindo através da Moral (“morus”=hábitos, costumes) e se a adquirimos, podemos considerá-la cultural; portanto, pode ser mudada.
A ética dominante é a ética do mercado capitalista, utilitarista, materialista e militarista, desagregadora dos laços familiares e da solidariedade entre as pessoas. Essa ética animaliza o ser humano, fazendo-o guiar-se essencialmente por seus impulsos e não pela reflexão. Cria um vazio de sentido de viver, fazendo com que as pessoas preencham esse vazio com mercadorias e assim corrobora-se com a violência, pois a medida em que agimos por impulsos, vemos os outros e a natureza como simples objetos que devem nos servir, então matamos, queimamos, depredamos, estupramos. Mas se definimos a Ética como algo que questiona esse sistema, ela pode ser o limite do capitalismo. Da mesma forma que somos educados para reproduzir o deus mercado, globalizado, que move-se segundo suas próprias regras e não segundo as necessidades humanas, podemos nos re-educar para imprimirmos um novo sentido à nossa existência. Assim como Frei Betto (2003:46):
“acredito que o primeiro passo é buscarmos vínculos de solidariedade e comunidade. Enquanto estivermos fechados nos nossos próprios interesses e em interesses imediatos, não vamos conseguir; só conseguiremos se nos ligarmos à comunidade, à solidariedade, às boas causas. Não importa que sejam assistenciais ou políticas, religiosas, imediatistas ou a longo prazo; importa que representem uma construção coletiva, da comunidade, do grupo, da instituição, da parceria, da irmandade, da fraternidade.”
Leonardo Boff (2005:143) nos alerta que “a crise mundial civilizacional é de tal gravidade que corremos o risco de cataclismos sociais enormes e de um colapso ecológico alarmante se não encontrarmos uma saída redentora.” Ao olharmos os acontecimentos atuais percebemos que essa fala tem muito sentido: além dos efeitos ambientais que já relatamos, vemos a enorme revolta dos jovens na Europa, demonstrando seu descontentamento através da depredação do patrimônio público e privado. Estes fatos demonstram que o capitalismo realmente entrou em crise, estamos nos autodestruindo. Precisamos com urgência rever nosso modelo de desenvolvimento e caminharmos rumo a uma sociedade sustentável, que tenha como referência o ser humano enquanto sujeito histórico, parte de uma teia inseparável de relações, onde todos estejam comprometidos com a construção de um bem comum e a atividade econômica seja um meio de vida para todos os seres humanos e a natureza.
A resolução de problemas básicos é fundamental para a construção de um desenvolvimento sustentável: ter esgoto, água limpa, organização do lixo, das ruas, ajudam as pessoas a sentirem-se melhor. Aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas no mundo têm acesso unicamente a água contaminada; 2,3 bilhões de habitantes carecem de acesso a instalações sanitárias, fazendo com que sofram de doenças ligadas a insuficiência ou contaminação da água; quase 800 milhões de pessoas passam fome no mundo; segundo a Organização Mundial da Saúde (1996), 6,6 milhões de crianças menores de cinco anos morrem anualmente de desnutrição – 18 mil por dia – enquanto dois bilhões de crianças sofrem de carência alimentar; 600 milhões de pessoas na Ásia, na África e na América Latina ocupam habitações e moram em localidades cuja precariedade representa ameaça para a saúde e perigo de vida; 1 bilhão de pobres vivem em áreas rurais atualmente. Em 2025, dois terços da população mundial viverão em cidades. Nos países industrializados, o desemprego atinge 35 milhões de pessoas.2
É indiscutível que o tipo de desenvolvimento atual está em colapso, mas é indiscutível também que podemos desenvolver um mundo com estruturas sócio-econômicas e instrumentos de produção diferentes dos que usamos agora. Retransformar a economia de guerra em que vivemos numa economia de paz. Revermos nossos padrões de consumo, separando o lixo e dando o destino certo a cada componente, criarmos agentes menos poluidores, optando por uma agricultura ecológica e familiar. Enfim, buscarmos uma Ética do Cuidado, onde o ser humano não seja o centro do universo, “mas um fragmento de vida e de consciência, gerado pela natureza em contínua evolução, apontando para uma Vida absoluta e uma Suprema consciência que tudo acompanha e preside.” (2005: 144) Por essas afirmações, reafirmo minha convicção de que a mudança é um grande desafio, mas não impossível e a mola propulsora disso, sem dúvida, é a educação, pois através de uma transformação cultural e subjetiva, podemos criar a via para um modelo de desenvolvimento pacífico, mais igualitário e não poluidor.

 

Autora: Maria Alice Canzi Ames1
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Referências Bibliográficas:


BETTO, Frei. Crise da Modernidade e Espiritualidade. IN: O Desafio Ético. Rio de Janeiro: Garamond, 2003, p. 31-46.
BOFF, Leonardo. Ética da Vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.
______________. Saber Cuidar. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
BRUM, Argemiro. O Brasil no Contexto Mundial. Ijuí: Ed. UNIJUI, 2004 (série ciências sociais, nº 19).
CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
FERRARI, Amarildo. Curso: Princípios para uma Ética Ambiental. Centro de Educação a Distância para o Meio Ambiente e a Paz. Site:
http://www.ceadmaz.org

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
VIEIRA, LISZT. Cidadania e Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2001.


1 Licenciada em Ciências Sociais, Mestre em Educação nas Ciências.

2 Dados extraídos do livro de: Liszt, Vieira. Cidadania e Globalização, p. 87 a 96.