A necessidade de uma educação ambiental que moralize o ser humano

Escrito por Raquel Mendes Miguel.

 

O ser humano, pelo seu instinto de conservação, busca sua sobrevivência; para sobreviver utiliza recursos da natureza, assim, por meio do seu trabalho, ele a transforma. Desta forma, a sociedade vai modificando o meio e consequentemente vai se modificando e adaptando-se às modificações do novo meio que ela mesma cria. Em outras palavras, como somos eterna Potência rumo ao Ato[1], vivemos em constante transformação em busca de aperfeiçoamentos e ao nos transformarmos, transformamos nosso meio, por sua vez, o meio transformado nos transforma. No entanto, essas transformações podem ser mais ou menos harmônicas de acordo com o grau de sabedoria individual e coletiva.
 

A humanidade encontra-se hoje em conflito. Sabe que as transformações são necessárias, mas sabe ainda dos abusos cometidos com o meio ambiente e assim reconhece que para sobreviver há a necessidade de conservação e de garantias de meios de vida para as futuras gerações. Mas, mesmo ciente desta necessidade, continua cada vez mais rapidamente a utilizar desmedidamente os recursos ambientais de forma destrutiva e muitas vezes sem nem remorso – já que há a justificativa da necessidade do progresso e do desenvolvimento como bases para essas transformações. Assim vivemos neste constante ciclo de transformar e ser transformado e de, muitas vezes, sabermos o que precisamos fazer e não conseguirmos realizar o que se deve. Isso nos leva a vivermos num ciclo de características destrutivas devido aos excessos, mas que pode vir a ser harmônico quanto mais consciente for o homem.

Quando inventadas em 1937, as lâmpadas fluorescentes duravam 10.000 horas, ou seja, mais de um ano de funcionando ininterruptamente. Para enquadrar esse produto recém descoberto na lógica mercadológica e fazer dessas lâmpadas produtos viáveis, os técnicos da empresa que as inventaram tiveram de reduzir sua durabilidade para 1.000 horas (Gonçalves, C.W.P., 2002). Essa história nos faz refletir sobre a realidade das práticas por nós realizadas e do sistema econômico social ao qual criamos. Assim sendo, dentro da lógica do capitalismo, o crescimento econômico, feito na forma de acumulação, tornou-se uma necessita social e a dominação ampla da natureza tornou-se igualmente necessária (Smith, 1988).
 

Com a civilização industrial da era moderna, surgiu o produtivismo (produzir mais, melhor, e com menos custos). O mais é então o melhor e o que se almeja - a produtividade, gera a necessidade de maior consumo e todas as coisas se tornam objetos a serem consumidos. Assim, a idéia da produção elevada e consumo elevado se propaga, fazendo as engrenagens do capitalismo girarem e o sistema sobreviver. Para manter tudo isso, haja energia e matéria-prima! Dessa forma, assiste-se a natureza, condição basilar para a existência de todas as espécies vivas, ser cada vez mais dilapidada em benefício da manutenção desse sistema capitalista insustentável.

Não devemos nos esquecer que os progressos científicos que possibilitaram a melhoria dos processos industriais deveriam visar a melhoria na qualidade de vida dos homens – no entanto a sociedade é hoje escrava deste sistema insustentável por ela criado. A lógica foi invertida: ao invés de se almejar possuir bens para viver melhor, busca-se viver para se ter mais.
 

Outrossim, a exploração não é apenas do meio natural; a submissão da mão-de-obra a essa lógica de produtividade e a dominação de classes favorecidas sobre a maioria da população que não possui os meios de produção, faz com que os benefícios do sistema sócio-econômico vigente fiquem restritos a poucos, e os custos fiquem para todos os demais. Assim, a dominação e exploração da natureza é acompanhada da dominação e exploração de homens e mulheres.

No entanto, como já foi dito, sabemos que o ser humano necessita utilizar recursos naturais para a sua sobrevivência, ou melhor, para a satisfação de suas necessidades. Segundo Abraham Maslow, as necessidades humanas seguem uma pirâmide, onde as necessidades básicas estão na base (alimentação, moradia, vestuário) e essa pirâmide vai subindo até o topo onde temos a necessidade de aprimoramento intelectual e realização pessoal, passando ainda por necessidades como a de pertencimento (o ser humano sentir-se parte de um grupo e reconhecido por ele). Assim, a busca pelo bem estar, nada mais é do que a satisfação das necessidades humanas.

A problemática desta questão entra quando discutimos o como essas necessidades são satisfeitas. Ou seja, para saciar a fome uma pessoa pode apanhar uma fruta da árvore do seu quintal ou comer um sanduíche de uma rede de fast food famosa. Para se agasalhar pode usar uma roupa que possui há anos ou adquirir e usar roupas da última moda. Dessa forma, a sociedade atual cada vez mais esquece quais são as necessidades a serem satisfeitas e se focam no como satisfazê-la da maneira mais chic e moderna.

Segundo Carlos Walter, caso “os ecologistas não possuíssem outras virtudes, já valeriam pelo fato de haverem desmistificado a idéia de que o american way of life é passível de generalização por todo o mundo”. Sabe-se hoje que se reproduzirmos esse modo de vida e essa lógica de produção a todos os homens e mulheres da Terra, logo todos os recursos naturais seriam exauridos. Dessa forma, se não pode ser para todos, não poderia valer para ninguém. Esse deveria ser o princípio pregado por todos.

Vê-se assim que a humanidade criou para si mesma sistemas políticos, econômicos e sociais hoje estabelecidos que a escravizam num ciclo vicioso de consumo, máxima produção com mínimo custo, máximo lucro, baixos salários, pouca ou nenhuma verba destinada ao cuidado e recuperação ambiental, além da estreita dependência entre ações políticas e públicas com os meios de produção privados, desvirtuando os interesses da coletividade.

Outro aspecto relevante da atualidade humana é o distanciamento que essa sociedade de consumo tem das fontes de recursos naturais. As pessoas que vivem nos centros urbanos (maioria dos consumistas) estão completamente “des-envolvidas”. Ou seja, desconhecem as fontes de água, o solo utilizado para a agricultura, as matas e vegetações que cobriam esses solos e como era a vida antes da devastadora ocupação humana em todos os ambientes. Desconhecem ainda os elos da cadeia produtiva que vêm antes da produção (onde estão as fontes dos recursos naturais) e os que vêem depois da cadeia produtiva (após o consumo vem o descarte). Portanto esse desligamento (“des-envolvimento”) do homem com a natureza e a sua visão limitada dos impactos ocasionados por esse consumo, geram uma série de problemas, principalmente ambientais.

Além das mazelas do conjunto social, agravam a crise ambiental as imperfeições humanas intrínsecas de cada ser. O orgulho, o egoísmo, a preguiça, entre outros, são fatores que explicam o mau comportamento individual que reflete no conjunto de nossa sociedade em descompasso. Assim, não é de se admirar que a sociedade esteja enferma, uma vez que as unidades que a forma – o ser humano, são tão imperfeitas.

Para disfarçar suas imperfeições para si mesmo e para os outros (já que o homem instintivamente sabe que é Potência e quer ser Ato) o ser humano usa dos conhecimentos que possui na atualidade para se sentir melhor. Ora, já que moralmente o ser humano ainda é muito imperfeito, a busca da felicidade (a realização de suas necessidades) se dá por meio de aquisições externas provenientes do seu alto grau de desenvolvimento científico e tecnológico. Sua imperfeição moral faz com que ele crie necessidades ilusórias além de buscar a satisfação de necessidades básicas de maneira a camuflar suas imperfeições (egoísmo, preguiça, baixo alto-estima, impaciência, intolerância, etc.). Assim, o ser humano tem como sua tábua de salvação a tecnologia e a ciência, pois é nela que ele crê que vai encontrar realização e felicidade. Deste modo, o ser humano se afeiçoa cada vez mais à técnica e aos objetos, aos bens e às externalidades na sua busca de adquirir o que não possui, na procura de ser mais perfeito, de ser Ato. Ficando então dependente do consumo, da tecnologia e do desenvolvimento científico que traz para ele facilidades, confortos e poderes que fazem o homem se sentir mais completo, maior e melhor.

No entanto, como a plena sensação de felicidade, realização e pertencimento só poderá ser alcançada com o desenvolvimento moral do ser humano (nisto está a busca de ser Ato), e por ele estar buscando sua felicidade por meios externos, esta nunca é encontrada e o ser humano fica constantemente insatisfeito e surge a necessidade de mais consumo e mais externalidades para distrair seu vazio interior na busca da felicidade encaminhada de maneira imperfeita. Eis aí a formação do ciclo destrutivo descrito anteriormente.

Diante deste quadro, concluímos que para levar a humanidade a uma mudança de rota para que se entre num ciclo harmonioso de crescimento e desenvolvimento e no real caminho da busca pelo seu aperfeiçoamento, garantindo um ser humano e um meio ambiente preservados e equilibrados é que a Educação Ambiental se faz tão necessária e urgente. Funcionando como instrumento de conscientização e re-ligação do indivíduo socialmente e planetariamente; feita de forma a transmitir conceitos morais de justiça, fraternidade, solidariedade, amor, responsabilidade, sensibilização social, tolerância, respeito à diversidade, pertencimento e entendimento do mundo e suas leis.

Segundo Allan Kardec, “Por toda parte a Ciência contribui para acrescer o bem-estar. Poder-se-á dizer já se haja chegado à perfeição? Oh! Não, certamente; mas, o que já se fez deixa prever o que, com perseverança, se logrará conseguir, se o homem se mostrar bastante avisado para procurar a sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não em utopias que o levam a recuar em vez de fazê-lo avançar.” (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira. 88ª edição. Pág. 382)

Assim, conclui-se que a humanidade pode sim realizar uma mudança comportamental e melhorar sua relação com o meio ambiente. Ela já realizou tantas maravilhas e conseguirá sim continuar seu aperfeiçoamento individual e coletivo. No entanto precisa enfrentar com mais coragem, dedicação e seriedade sua elevação moral.

Entretanto, como grande parte da humanidade ainda não tomou real consciência das atuais necessidades da humanidade, a educação ambiental ainda é pouco aplicada, sendo que mais insignificante ainda são os processos educativos que utilizam os valores morais como conteúdo. Desta forma, a responsabilidade sobre quem já despertou para essa necessidade e tem a coragem e determinação para educar e ser educado é ainda maior. Portanto, se você é um desses seres (bem) humanos, faça a sua parte e um pouco mais para que a marcha da humanidade siga na direção da verdadeira melhoria e felicidade.

 

Autora: Raquel Mendes Miguel

Bibliografia:

Bernardes, Júlia Adão e Ferreira, Francisco Pontes de Miranda. Sociedade e Natureza;

FERRARI, Amarildo. Textos de Aula, módulos 04 e 05.

Foladori, Guillermo. Limites do desenvolvimento sustentável. Campinas: Editora da Unicamp, 2001;

Gonçalves, Carlos Walter Porto. Um pouco de filosofia no meio ambiente. In: QUINTAS, J.S. (Org.). Pensando e Praticando a Educação Ambiental. Brasília: Edições Ibama, 2002;

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: Federação Espírita Brasileira. 88ª edição.

NETO, Henrique Nielsen. Filosofia Básica. São Paulo: Atual Editora, 1986.

SMITH, N. Desenvolvimento Desigual. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1988.


[1] Conceito da filosofia onde Potência é o material que pode ser transformado em Ser (ser é o que é o que existe) e Ato é todo Ser determinado e perfeito. Assim a base está na matéria-prima que é pura Potência e o ápice está na perfeição absoluta que é o Ato puro. O que se encontra entre estes dois limites é simultaneamente Ato e Potência: é Potencia em relação ao grau superior e Ato em relação ao grau inferior.